A pupila saltava ante o espetáculo promíscuo das cores. Sua pele movediça, harmonizara em claves de sol todo o repertório cromático da manhã. Um ócio orquestrado em cada respiração, toque, olhar unia todos os tempos num silêncio cúmplice e dissimulado capaz de romper a dormência dos corpos ao mais débil sinal. Na cisma de prolongar(ou parar) o relógio balbuciamos promessas...
Vinícolas na Itália?!
Um dia, um dia...
16 de jan. de 2012
13 de jan. de 2012
Exariu-me até a demência. Até a falência de todos os meus ossos e carnes. De vivo, só a automação orgânica de intestino, rins, vísceras. Heranças da espécie. De resto, nada além do que expelia: suor, gosmas, alma...
Demente e chupado por todos os lados. Casulo e mortalha da saliva. Tudo em mim murchava. Cansaço e gozo. Tudo nela, fartura. Corpo vigoroso. Manto adiposo desposado. Veia latente e a vida exuberante que ela me cuspia em risos. e, ainda assim, fragilidade fortuita. Intimidade celular de minhas essências nela. Rastro de gametas que lhe invadia dentro.
... e estar dispostos à parte mais retraída do sol (onde a luz, frágil seda cintilante), recobria a intimidade noturna das frestas, das claves... dos corpos. Nossos corpos sempre suspeitos, parados à beira da espera. Desabar o horizonte era o que aprazia e dava um sentido inominado às horas, às tardes das horas, enquanto tudo se reduzia a prestes acontecimentos que, enfim, movimentariam novamente os itinerários musculares da vida: o ônibus quase a chegar, o pão quase a sair, o troco... antes disso, mais nada. Tíbio respirar. Primária função biológica que servia à existência, ao fôlego. No mais, eram ruídos pretéritos lá fora, paisagem imutável. O café esfriou em minha xícara.
Quem espera sempre padece de uma eternidade rarefeita.
Quem espera sempre padece de uma eternidade rarefeita.
Sem grito, nem luz,
adentrei a antiga entranha da casa.
Músculos se contraíram até eu penetrar no cerne amniótico e ali silenciar os tempos, os temperos (temperamentos) da matriarcal: o sebo nas pernas, a pose (des)esperada de quem ouvia de longe notícias do filhos, das mazelas de um vizinho, ou qualquer motivo pra rezar uma conversa e bençãos para aplacar os males. Álibi e cumplicidade.
Gestei anos para parir essa imagem...
Gerei minha avó.
adentrei a antiga entranha da casa.
Músculos se contraíram até eu penetrar no cerne amniótico e ali silenciar os tempos, os temperos (temperamentos) da matriarcal: o sebo nas pernas, a pose (des)esperada de quem ouvia de longe notícias do filhos, das mazelas de um vizinho, ou qualquer motivo pra rezar uma conversa e bençãos para aplacar os males. Álibi e cumplicidade.
Gestei anos para parir essa imagem...
Gerei minha avó.
12 de jan. de 2012
O quarto, a essa altura, era um espaço de exilado silêncio.
Enquanto não houvesse manhã no gesto, nada despertava a santidade exata das coisas: a xícara era a xícara sem café e sem saliva em sua borda; a torneira talvez pingasse o descuido secular da noite anterior, nem mesmo havia nome no nome da maçã. Sublimação conjunta de nadas, tudo era duração, permanência livre de minha incauta divagação e a mania boba de tirar o descanso do mundo.
Mordi e poderia ser tudo, menos maçã Talvez o velho cachimbo de Magritte...
Enquanto não houvesse manhã no gesto, nada despertava a santidade exata das coisas: a xícara era a xícara sem café e sem saliva em sua borda; a torneira talvez pingasse o descuido secular da noite anterior, nem mesmo havia nome no nome da maçã. Sublimação conjunta de nadas, tudo era duração, permanência livre de minha incauta divagação e a mania boba de tirar o descanso do mundo.
Mordi e poderia ser tudo, menos maçã Talvez o velho cachimbo de Magritte...
Na fração de uma hora eternizada, tentei dizer o que havia passado e
o que via na noite que o dia, exausto, dera à luz.
No entanto, a tarde adormecia continuamente
meus dedos, meus olhos,
meu tronco curvado ao sabor retorcido de árvores do cerrado.
Dei por mim que toda linguagem era dormente e longe.
Solos se esqueciam tranquilos e noturnos ao meu redor.
Sei que depois da festa,
estar sozinho é uma das mãos do sonho.
o que via na noite que o dia, exausto, dera à luz.
No entanto, a tarde adormecia continuamente
meus dedos, meus olhos,
meu tronco curvado ao sabor retorcido de árvores do cerrado.
Dei por mim que toda linguagem era dormente e longe.
Solos se esqueciam tranquilos e noturnos ao meu redor.
Sei que depois da festa,
estar sozinho é uma das mãos do sonho.
10 de jan. de 2012
Percebi hoje. Durante a chuva toda minha estrutura se diluía junto. Escorria até um reflexo borrado e úmido na calçada. Era uma aquarela lacrimal, cinza. E não por ser triste, mas belo, lembrei também que aquela cena era em nada física. Devaneio pluvial e sonoro da água caída na rua. Talvez o que nos reunisse fosse apenas a sobriedade solitária do quimérico e do vivido. Nada mais. Lembrança embotada de perfeições poéticas. Idílios. Lembrar, não raro, pulsa mais que a vida sentada do cotidiano, tão giratória em cadeiras, dores elevadas. Elevadores. Retalhos do corpo no espelho e no que vejo do corpo: um braço, mãos, pernas, pênis seguindo a extensão vertical de um tronco sem cabeça (por onde também pairam idéias invisíveis). Anatomia dada a fragmentos. Inveja primordial a de não nos vermos em totalidade, mas sermos vistos pelo outro, por quem queremos ser vistos da fisionomia aos pequenos gestos, manias, álibis do encanto... Mesmo essa voz ditada no socrático mundo das idéias me vem em sussurros, códigos, rasgos de um livro distante e incorpóreo. Dizem. Falam na precisão errante dos ventos, na mão de quem alimenta galinhas com punhados mirrados de milho. De grão em grão, etc, etc... Voz em surdina, nos interstícios da invenção. Na escrita. E tudo que compunha a biológica organização, lapidada pelos ciclos evolutivos calham agora numa existência coisificada. Meu corpo era qualquer objeto visto, tocado. Certamente xícara não mais teria esse nome. Chamar-se-ia dedos, mão. Meus sapatos chamar-se-iam meus pés. Minha língua, um livro. Como em Magritte, tudo em mim tem essa impressão de ser um falso cachimbo usado pelo tempo.
9 de jan. de 2012
O silêncio abusa de minha língua.
Cria estalos, saliva, hálito. Dedos esfregam a testa, a textura de antigas palavras que não sei dizer, nem ouvir. Perambulam penadas, ausentes de qualquer sentido. Lamúrias, rumores, rezas... a voz de minha avó. Quiçá. Acompanham há dias a rotina silenciosa de meu caminho até o trabalho, o costume mórbido que tem as ruas nos períodos de férias: vento, poeira, chuva, automóveis imóveis. Nada diz, mas quer. Arma tocaia e, não demora, eu sei, despertaria morto com a boca aberta, falando ao dia as coisas que dizem o dia. Sabendo pedir ao céu o gosto amaciado das nuvens, o fedor empoeirado dos pombos e nessa hora perceberia que o ar que serviria até para preencher os pulmões, os vazios. Tudo respira se eu bem souber tocar. Os livros abrigam um certo fôlego de vida quando manuseados como um leque. Ventila...
Cria estalos, saliva, hálito. Dedos esfregam a testa, a textura de antigas palavras que não sei dizer, nem ouvir. Perambulam penadas, ausentes de qualquer sentido. Lamúrias, rumores, rezas... a voz de minha avó. Quiçá. Acompanham há dias a rotina silenciosa de meu caminho até o trabalho, o costume mórbido que tem as ruas nos períodos de férias: vento, poeira, chuva, automóveis imóveis. Nada diz, mas quer. Arma tocaia e, não demora, eu sei, despertaria morto com a boca aberta, falando ao dia as coisas que dizem o dia. Sabendo pedir ao céu o gosto amaciado das nuvens, o fedor empoeirado dos pombos e nessa hora perceberia que o ar que serviria até para preencher os pulmões, os vazios. Tudo respira se eu bem souber tocar. Os livros abrigam um certo fôlego de vida quando manuseados como um leque. Ventila...
5 de jan. de 2012
Enquanto isso, pássaros maduros reorganizam a lógica caduca da hora. Compromissos com a fome, omissões de gentileza, o andar pela calçada neutro, neutro... Distantes de qualquer pensar, compelem sem cessar à dilatação física dos hemisférios que distinguem terra e céu. Ciência exata a dos pássaros. Mais ágeis que as equações, tontas contemplações de quem abriu o olho e perdeu o chão. Voou junto.
3 de jan. de 2012
Então despertei um evento sutil. Era manhã, e banheiro. Fixei os olhos naquele desentendimento tátil escorrido em minha pele. Estranha forma de vida alojada em meu ombro esquerdo. Rastro luminoso, corpo ligeiramente esférico, cor de minha transparência. A surpresa era uma gota de dia caída do queixo, resquício da manhã deslavada no rosto. Escorri o tempo. A margem ainda era gota, lado sutil onde se liam poros, pêlos, raciocínios. No entanto, uma outra profundidade que eu não via, alcançara um ponto indefinível. Por que de seu caráter estranho, exótico, fui bem capaz de imaginá-la inseto, um sexto sentido apregoado à pele da existência, sonho. Menos gota. E menos ainda por não ser fria. Tinha em seu temperamento físico a mesma temperatura de minha tez. Lembro de alguém (Bachelard, Duchamp, Manoel de Barros?) ter dito que quando enxergamos de fato um objeto, o vemos pra além de seu nome, de sua função e o refletimos numa espécie de espelho nulo, sem eu, nem mundo. Princípio de linguagem... quiçá. Despertei a manhã? Despertei o amanhã? Talvez fosse lágrima. Aquela gotícula de água, de inseto, de vida, era minha irmã.
28 de dez. de 2011
Lá fora, muros mais maduros que a maturação colorida das romãs. A aparência inerte das coisas não tinha dureza. Passos atrás de mim, a irmã cantando um pedaço de canção perdida. Pássaros tecendo a voz do dia; eram asas ou o seu bater? diziam adeus? sabiam? não sei...
É tão agridoce a receita deste dia...
É tão agridoce a receita deste dia...
19 de dez. de 2011
Iniciei um gesto íntimo. Passeando as mãos no tapete figurei a silhueta de um corpo inexistente. Por instantes vastos, lembrei a particularidade ímpar do primeiro toque; a gravidade de seu corpo pretérito ainda me enchia de pesar; memórias inventadas, como sempre são. Depois ainda, lamentei tudo ter acabado antes das primeiras chuvas; por ter chovido tanto, enquanto fora de mim, verão; e do gosto solitário do café quem teimei em tomar misturado à lágrimas, orgulhos. Respiro. E por mais saber que lembrar é mais uma forma de respirar, que de propriamente viver, interrompi a respiração. Fechei os olhos e vi que lá fora o mundo era apenas um ruído buscando a altura daquele quarto. Sorvi o vinho e percebi o corpo que carregava a séculos em meu tato, estava
à minha frente, tão bêbado quanto. Distante igual. E a anatomia tão cuidadosamente guardada em silêncios calara, já não fazia diferença alguma. Estampas no vestido, pétalas de algum lugar mas bem sei: se ela se despisse de tudo, ainda haveriam flores.
14 de dez. de 2011
Estava sentado à mesa, mas a memória remontava um percurso particular. Passeou o corredor vazio, a cama dada ao embaraço amanhecido do dia, a xícara morna e sem toque. No quintal, alcançou plantas que não vingam, nem morrem, mas como tudo que compõe a lembrança, padecem da mesma eternidade poente que há nas fotografias, nos livros, nas esperas. Por que esperar pode ser (não raro) a companhia de alguns dias, sabe-se, é uma das manias da saudade. Tão logo, desesperei as horas em rabiscos de um tempo sem data. Escrevi. Na língua, senti o gosto do café amadurecer. Fui ritmado por nuvens matutinas. Caí em tentações de ser anjo, pássaro, mosca. Prolonguei a vida num suspiro. Claridades opacas já não constrangiam as vistas.
Apesar de nublado, os olhos bem sabiam:
Não choveria.
12 de dez. de 2011
11 de dez. de 2011
Chuva precipitando-se externa e internamente. Desperto, julguei que a coceira em um dos olhos fosse a queixa do sono em não encarar a vidraça opaca da tarde. Vozes familiares compunham um repertório incompreensível e se misturavam ao que me restava de silêncio. Em todo o corpo a mão de uma voz bulia: "ecos devoram a carne"; saía de mim, mas, era minha aquela voz intestinal? imaginei que, no período medieval, monges acreditavam existir um órgão criador das palavras, verbo feito carne, etc...
divaguei labirínticas iluminuras e tudo o mais foi silêncio. Percorri afazeres domésticos, embrenhei selváticas entranhas pulmonares. Subitamente despertou outro fato: não sei ao certo se foram minutos ou séculos que se adormeceram em mim. No canto da boca, escorria pó.
O tempo passara por ali.
Havia santidade nos objetos.
divaguei labirínticas iluminuras e tudo o mais foi silêncio. Percorri afazeres domésticos, embrenhei selváticas entranhas pulmonares. Subitamente despertou outro fato: não sei ao certo se foram minutos ou séculos que se adormeceram em mim. No canto da boca, escorria pó.
O tempo passara por ali.
Havia santidade nos objetos.
10 de dez. de 2011
Fora de mim
O pó das coisas
Me eternizavam.
Padeci de um embaraço natural:
Cresci as horas,
Os silêncios,
A inércia...
Saudades capilares insistiam em vingar dos poros,
transmutando minha humanidade para um estado vegetal de planta esquecida na cadeira.
Pêlos púbicos queriam rastejar a pele de outra distância;
Nutrir-se em suor,
Trepar sadias e clássicas arquiteturas.
Porém, nada além da espera:
No chão, o barulho humoso e desnorteado daquela busca.
Compus um canteiro com meus nomes.
Sou bem capaz de flores...
Quantas ainda?
4 de dez. de 2011
Invento um tempo:
Imprecisão, cisão de mim entre as coisas.
Há uma xícara no que vejo,
ou imagino ver?
Mas, que é que vejo?
Que é essa coisa que transita entre a realidade objetal da xícara e esse outro lado que não é nada, mas que também nada traduz?
A xícara para além da xícara!
Fumaça inconclusa do querer dizer.
Desespero inanimado das coisas vistas e sentidas em sua intimidade inventada;
minha intimidade na aspereza do mundo.
Que há nesse fundo?
Ah... querer é poder.
Mas não diz muito.
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