14 de ago de 2012

Anos mais tarde, notou na capilaridade grisalha de seu ventre, a insistência negra de um fio. Trazia em seu comprimento todo o vigor áureo da juventude. Deteve-se num pasmo; examinou com perícia aquele fio, despercebido pela incauteza do tempo. Tocou-o com as trêmulas pinças das unhas, sem saber ao certo o que era aquela sua curiosidade ante o ínfimo. Havia uma discrepância não só na negrura sedosa daquele pêlo, mas também em seu crescimento anelado. Emaranhado em suas crespas entranhas, o fizera lembrar das míticas serpentes originais que puseram os homens a se perder no movimento labiríntico seus anseios. Suas pinças, agora, não tremiam dúvida alguma: Aquele resquício de cabelo serpenteado, tinha uma existência feminina. Desvencilhado de toda culpa e esquecimento, entendeu que tal laço era a prova inequívoca do amor. Reencontrou nas desertas fissuras da face, as rotas de um antigo sorriso, que logo molharam; que mais além, ruiu a rouquidão sonora de uma língua egressa do exílio: "Renata. renata!"  

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